Bahia
Falta de equipamentos trava resgates na Bahia: servidor está desaparecido em Vitória da Conquista
Casos como o do servidor Fábio, desaparecido em Vitória da Conquista, Cabula e Dique do Tororó, todos este ano, evidenciam que sem roupa seca, bombeiros são impedidos de atuar com segurança em locais contaminados.
Vitória da Conquista vive dias de angústia e indignação. O desaparecimento do servidor municipal Fábio de Araújo Silva, sumido desde o dia 20 de junho nas proximidades do Estádio Lomanto Júnior, evidencia mais uma vez a grave precariedade estrutural do Corpo de Bombeiros da Bahia. As buscas, iniciadas no dia 1º de julho, foram suspensas por tempo indeterminado diante dos riscos biológicos da lagoa de decantação da Embasa (o “Pinicão”), onde as equipes suspeitam que Fábio possa ter caído.
A decisão de interromper os trabalhos foi justificada pela falta de visibilidade e a contaminação da água, que tornaram inviável qualquer operação subaquática sem o uso da roupa seca, equipamento essencial de proteção contra poluentes. O problema, no entanto, não é um caso isolado.
Em março deste ano, durante o Carnaval, um jovem desapareceu no Dique do Tororó, em Salvador, após ser obrigado a pular na água por um grupo de agressores. A vítima só teve o corpo encontrado dois dias depois. Na ocasião, os bombeiros também demoraram para iniciar o resgate por não disporem da roupa seca necessária para garantir a segurança da equipe em ambiente contaminado.
Um soldado do Corpo de Bombeiros Militar da Bahia (CBMBA), que atuava como encarregado da guarnição de operações de mergulho autônomo, relatou formalmente ao Ministério Público que não havia possibilidade técnica de executar as buscas devido à ausência de equipamentos de proteção contra poluentes — a chamada “roupa seca” — e dos produtos adequados para descontaminação dos operadores.
De acordo com esse relato, a operação seguiu sem o equipamento adequado, desrespeitando a Norma Operacional nº 05/2020, que exige o uso do traje de proteção para garantir a integridade fisiológica do mergulhador em águas poluídas. O militar solicitou inclusive uma análise técnica sobre a condução da operação, com base em seu comando da guarnição e nas declarações prestadas à ouvidoria e à Corregedoria.
A situação se repetiu em abril, na Lagoa da Timbalada, conhecida como Pedreira do Cabula, também em Salvador. O adolescente Gustavo Ferreira Bispo, de 14 anos, entrou na água e desapareceu. O corpo do jovem só foi encontrado mais de um dia depois, quando boiou — mais uma vez, a falta do traje de proteção impossibilitou os mergulhos subaquáticos imediatos.
O caso mais recente, o do servidor Fábio em Vitória da Conquista, é especialmente grave por envolver uma vítima com vínculo direto com o serviço público e por reforçar, mais uma vez, a paralisia operacional de um Estado incapaz de oferecer o mínimo para salvar vidas. Equipamentos de busca, cães farejadores, drones com câmera térmica foram utilizados. Porém, sem a roupa adequada, os mergulhos foram suspensos e as buscas, limitadas.
“A gente só queria uma resposta”, desabafa Rafael Neres, colega de Fábio, em entrevista. “Qual é a linha de investigação? Homicídio? Suicídio? Por que não há uma nota oficial? É uma angústia para a família, para os colegas.”
A Prefeitura, por meio do coronel Ivanildo, informou que busca apoio junto à Embasa para mapear a área e possibilitar, quem sabe, a entrada de uma máquina na lagoa, que ajude a localizar qualquer vestígio. Enquanto isso, o silêncio das autoridades estaduais e a omissão de recursos básicos continuam a custar tempo e, possivelmente, vidas.
