Brasil
‘Quem paga a conta das tarifas de Trump?’
Empresas começam a repassar custos a consumidores, mas boa parte ainda absorve prejuízos para não perder mercado nos EUA
Com o retorno de Donald Trump à Casa Branca e a retomada de sua agenda protecionista, os Estados Unidos inauguraram uma nova fase da guerra comercial, impondo tarifas médias efetivas superiores a 16% sobre importações, a maior taxa desde a década de 1930. A mudança, oficializada por ordem executiva assinada em 31 de julho, já começa a provocar efeitos no comércio global — e levantar a pergunta: quem está realmente pagando por essas tarifas?
Algumas empresas estrangeiras já começaram a repassar os custos ao consumidor americano, enquanto outras optaram por bancar o prejuízo momentâneo para preservar competitividade. É o caso da Ferrari, que aumentou em até 10% o preço de seus carros, e da britânica Ineos, que repassou as novas taxas para o preço do seu utilitário Grenadier. A Canon, gigante do setor de câmeras, alertou seus revendedores sobre os aumentos iminentes.
Contudo, o impacto generalizado na inflação americana ainda parece contido. Em junho, os preços ao consumidor (excluindo alimentos e energia) subiram apenas 0,2%, abaixo das expectativas do mercado. Segundo análise do Deutsche Bank, muitas empresas estão absorvendo os custos tarifários ao reduzir margens de lucro ou utilizar estoques acumulados antes da entrada em vigor das medidas.
Fabricantes asiáticos estão entre os mais impactados. A Nintendo, por exemplo, manteve o preço do novo Switch 2 em US$ 449,99 nos EUA, enquanto fornecedores chineses como a Fuling (talheres) e a sul-coreana Tirtir (cosméticos) sinalizaram que pretendem absorver grande parte das tarifas para evitar repasses aos consumidores.
No setor automotivo, exportadores sul-coreanos já registram queda nos preços, segundo o Citigroup. O Banco do Japão também apontou uma redução de 26% no valor em ienes das exportações de automóveis para os EUA, o que sugere um esforço deliberado para amortecer o choque tarifário.
Dados compilados pela The Economist confirmam a tendência: os preços médios de exportação, em moeda local, caíram 3,6% no último ano entre os principais parceiros comerciais dos EUA — incluindo Canadá, Alemanha e Coreia do Sul —, comportamento oposto ao verificado na primeira guerra comercial de Trump, em 2018.
Mesmo assim, especialistas alertam que esse fôlego pode ser curto. As tarifas sobre produtos da União Europeia e da Coreia do Sul devem subir para 15%, as da Índia para 25%, da África do Sul para 30% e do Canadá para 35%. Já a China permanece com tarifas de cerca de 40%, mesmo com uma possível prorrogação da trégua comercial.
A guerra tarifária, por ora, é sustentada pelas empresas, mas à medida que os aumentos se consolidarem, é provável que os preços ao consumidor nos EUA subam, pressionando a inflação e potencialmente afetando o humor do eleitorado americano — sobretudo diante do cenário de eleições e alta sensibilidade econômica.
Como muitos economistas apontam, o protecionismo de Trump pode, mais uma vez, sair caro para o próprio consumidor americano — mesmo que o discurso político tente colocar o peso nas costas de outras nações.
