Política
Lula busca aproximação com presidentes de direita na América Latina
Palácio do Planalto teme cerco político de Donald Trump na região e aposta em alianças estratégicas
Sob pressão do governo de Donald Trump, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva tem intensificado esforços para se aproximar de líderes de direita da América Latina. A estratégia visa evitar o isolamento diplomático do Brasil e conter o que o Planalto enxerga como um possível cerco político dos Estados Unidos na região.
Integrantes do governo avaliam que Trump busca reeditar um “Grupo de Lima”, como o que atuou contra a ditadura venezuelana, agora direcionado ao Brasil. Para o Palácio do Planalto, o objetivo da Casa Branca seria abrir caminho para uma “mudança de regime” e interferir no processo eleitoral brasileiro de 2026.
Na última semana, Washington publicou um relatório crítico sobre direitos humanos no Brasil, impôs sanções ao entorno do ministro da Saúde, Alexandre Padilha, devido ao programa Mais Médicos, e cancelou uma reunião do secretário do Tesouro, Scott Bessent, com o ministro Fernando Haddad. O episódio, segundo diplomatas, teria sido influenciado por setores do lobby bolsonarista nos EUA.
Para neutralizar possíveis hostilidades, Lula busca reforçar laços bilaterais mesmo com governos ideologicamente opostos. A recente visita de Daniel Noboa, presidente do Equador, e a próxima agenda com José Raúl Mulino, presidente do Panamá, marcam o início dessa aproximação. O governo brasileiro pretende firmar cooperação policial com Quito para combater facções criminosas, além de equilibrar a balança comercial, hoje desfavorável ao Equador.
No caso do Panamá, o interesse está em um acordo de livre comércio com o Mercosul, além da compra de aeronaves da Embraer e a participação de investidores brasileiros no Canal do Panamá.
Diplomatas ressaltam que Lula também se prepara para reconhecer as eleições na Bolívia, onde pela primeira vez em 20 anos a esquerda ficou fora do segundo turno, e já sinalizou que não apoiará as contestações de Evo Morales. No Chile, a possível vitória do direitista José Antonio Kast também entrou no radar de Brasília.
Apesar da resistência política entre Lula e Javier Milei, na Argentina, a relação comercial segue avançando em áreas estratégicas como energia e infraestrutura. Com o Paraguai, o governo tenta retomar contatos após o desgaste provocado por denúncias de espionagem da Abin.
Segundo auxiliares do Planalto, a prioridade de Lula é evitar instabilidades nas fronteiras brasileiras, em especial diante da crise migratória da Venezuela, e garantir que os países vizinhos não sejam cooptados por uma agenda de confronto liderada por Trump. O presidente deve reforçar essa posição em discurso na Assembleia-Geral da ONU, em Nova York, onde planeja reunir mais de 30 líderes mundiais em defesa da soberania e da democracia.
