Bahia
Facções disputam território e ampliam domínio em áreas turísticas de Salvador
Pichações do Terceiro Comando Puro revelam avanço do crime organizado em pontos nobres e turísticos da capital baiana
A inscrição da sigla do Terceiro Comando Puro (TCP), segunda maior facção do Rio de Janeiro, encontrada nas balaustradas do calçadão próximo ao Farol da Barra, em Salvador, reforçou a crescente presença de grupos criminosos em áreas nobres e turísticas da cidade.
A Barra, considerada um dos principais cartões-postais da capital baiana, já vive sob a divisão de controle de facções. De acordo com reportagem do Correio, o Porto da Barra é dominado pelo Comando Vermelho (CV), enquanto o Cristo da Barra está sob influência do Bonde do Maluco (BDM).
Expansão do TCP na Bahia
As pichações do TCP foram flagradas no dia 5 de agosto, em frente ao monumento do Cristo, região próxima à comunidade da Roça da Sabina, controlada pelo BDM. Desde sua chegada à Bahia, em cidades como Santo Amaro da Purificação e Jacobina, o TCP consolidou aliança com o Bonde do Maluco, grupo que também é rival do CV. Essa parceria já foi identificada em bairros como Mussurunga e Vila Verde, em Salvador.
A pouco mais de 1 km dali, o Porto da Barra — eleito em 2007 pelo The Guardian como uma das melhores praias do mundo — segue sob domínio do Comando Vermelho. “Aqui não fica ninguém de ‘três letras’. Se aparecer, é morte na certa. Aqui é ‘tudo dois’”, afirmou um ambulante ouvido pela reportagem, fazendo referência à facção carioca.
Impacto no turismo e insegurança crescente
Segundo o professor Horácio Hastenreiter, da Ufba, a disputa territorial em áreas de grande visibilidade revela um interesse econômico: “As novas facções chegam em busca de mercado consumidor. Salvador tem turismo forte, vinculado à cultura e às festas, mas também há um alto consumo de drogas”.
Para o articulador do Fórum Popular de Segurança Pública do Nordeste, Wagner Moreira, a presença das facções em áreas nobres expõe a falta de infraestrutura urbana adequada e amplia o cenário de violência que ameaça o turismo.
A professora Márcia Margarida Martins, da Uneb, reforça: “A presença de facções como o CV e o BDM em pontos turísticos afeta diretamente a percepção de insegurança. Isso se reflete no afastamento de turistas, sobretudo estrangeiros, que pesquisam índices de segurança antes de viajar”.
Histórico recente de violência na região
A escalada de crimes em bairros turísticos não é novidade. Em julho de 2023, um homem foi encontrado morto dentro de uma caixa de isopor no Porto da Barra. Em dezembro do mesmo ano, uma mulher foi assassinada em frente ao Farol da Barra. Já em janeiro de 2024, um homem foi baleado após trocar tiros com policiais na Avenida Centenário. Em março deste ano, um tiroteio na praia do Porto da Barra assustou banhistas em pleno domingo à tarde.
Clima de insegurança e desespero
Para moradores e trabalhadores locais, a sensação é de desesperança diante do avanço do crime organizado. “A sensação é de que perdemos essa guerra para eles (criminosos)”, afirmou o funcionário público João Paulo Feitosa, residente da Barra.
