Saúde
Covid longa expõe lições cruciais para enfrentar futuras pandemias
Pesquisadores alertam que o risco de novas pandemias é crescente — e que os efeitos de longo prazo da Covid-19 podem ser o sinal de alerta que o mundo ainda não aprendeu a escutar.
Cinco anos após o início da pandemia, cientistas e médicos seguem desvendando os impactos da Covid longa — condição marcada por sintomas persistentes e debilitantes. Embora ainda envolta em incertezas, essa síndrome trouxe à tona um alerta inescapável: novas pandemias são inevitáveis, e seus efeitos vão muito além da fase aguda da infecção.
“A realidade é que as pandemias vão acontecer novamente. Não é uma questão de ‘se’, mas de ‘quando’”, afirma o epidemiologista Ziyad Al-Aly, da Universidade Washington em St. Louis. Para ele, a Covid longa deve servir como ponto de partida para preparar não só o sistema de saúde, mas também a sociedade, para os desafios crônicos que surgem após grandes surtos virais.
Estima-se que mais de 20 milhões de americanos estejam lidando com sintomas prolongados da Covid. Mas essas sequelas não são exclusivas da pandemia atual: registros semelhantes foram identificados após a gripe de 1918, o SARS-CoV-1, o MERS e até ebola e dengue. Especialistas agora veem um padrão claro — doenças pós-virais crônicas são parte do legado de grandes pandemias.
Com sintomas como fadiga extrema, confusão mental e dores persistentes, a Covid longa guarda semelhanças com a síndrome da fadiga crônica (EM/SFC), o que tem ajudado a lançar nova luz sobre condições até então pouco compreendidas.
Contudo, mesmo diante desse avanço, pesquisadores alertam que a estrutura de resposta está em risco. Nos Estados Unidos, cortes orçamentários afetaram diretamente programas voltados à pesquisa da Covid longa. O Escritório de Pesquisa da Covid Longa e o Comitê Consultivo do Departamento de Saúde foram extintos antes de realizarem suas primeiras ações efetivas.
“Estamos menos preparados hoje do que estávamos antes da Covid-19”, alerta Al-Aly. Além da perda de recursos, há também um esvaziamento da memória coletiva sobre os perigos vividos. “Pagamos um preço alto por esse conhecimento. Mais de 1,1 milhão de vidas foram perdidas. Precisamos agir antes que seja tarde novamente”, diz.
Apesar dos retrocessos, iniciativas como o programa Recover Covid conseguiram estabelecer uma base de dados inédita e multicêntrica sobre a síndrome, com quase 15 mil participantes em 83 centros de pesquisa nos EUA. Esses dados podem ser fundamentais para desenvolver protocolos mais rápidos e eficazes nas próximas emergências sanitárias.
A mensagem dos especialistas é clara: a próxima pandemia virá, e a experiência com a Covid longa precisa moldar nossa resposta futura, com foco na prevenção, diagnóstico precoce e cuidado integral — inclusive nos anos que seguem após o fim do surto.
